22 setembro 2010

Meu dedo e a arte na faixa [1]







21 setembro 2010

Como diferenciar um candidato de outro?

Para cada proposta política que um candidato apresenta, há um princípio do qual lhe é implícito. Separar princípios da verdadeira miscelânia de propostas não é uma tarefa fácil. E mesmo os mais eruditos, por vezes pecam ao analisar uma proposta pelos seus resultados diretos e não pelos princípios que nela estão implícitos. E para os que estão indecisos, tudo aparenta ser tão igual que, quanto mais propostas aparecem, maior fica a confusão e a semelhança entre um candidato e outro.

O primeiro grande princípio a ser analisado é: para quem este ou aquele candidato apresenta seus projetos? Respondendo isto, já é meio caminho andado para se escolher sabiamente seu candidato.

O grande problema, neste caso, é que a política é dinâmica. E os grupos e camadas sociais que um determinado candidato defendeu ontem, hoje pode não mais defendê-los. Assim como as coisas mudam, as alianças também. E é extremamente natural aquele inimigo de ontem estar hoje aliado. Traição, em política, é não cumprir acordos. Mudar de lado, de postura ou de opinião é a coisa mais normal e saudável que se tem - desde que não se descumpra acordos ou compromissos.

E, por falar em compromisso, esse se faz com o eleitorado. Portanto, registrar em cartório um programa de governo não significa nada, exceto uma medida de impacto para os mais desprevinidos se impressionarem com o gesto. Cartório nenhum tem poder de impeachment.

No debate de ontem, 20 de setembro, na RIC-TV (Record); chamou-me a atenção algumas coisas, que somente analisando os princípios é que dá para separar o joio do trigo.

- O ex-prefeito de Curitiba se considera o melhor candidato por ser o único com experiência no Executivo (os demais ou foram parlamentares ou nunca conseguiram se eleger). Tal argumento possui princípio aristocrata, portanto nada democrático. Platão, por exemplo, aristocrata, era contra a democracia, pois defendia que há pessoas que nascem pilotos, outros marinheiros. E que, a democracia, faria com que marinheiros fossem escolhidos como pilotos, comprometendo a navegação. Prova de que a democracia não depende de expertises no comando é que Lula, que nunca foi eleito para o Executivo, é o presidente melhor avaliado da história do Brasil e por mais longo tempo.

- Outra do ex-Prefeito: "Vou levar cultura para o povo". Esconde-se neste argumento dois preconceitos de classe: o primeiro é a ideia de que o povo não tem cultura e o segundo é que povo e pobre são as mesmas coisas.

Resumindo... Devemos identificar as camadas e grupos sociais que cada candidato está comprometido e se perguntar se fazemos realmente parte de tais grupos ou camadas. Um candidato comprometido com os trabalhadores dificilmente fará política que beneficie somente o patrão, e vice-e-versa. Por mais que se queira ser patrão, se sua condição é de trabalhador, o ideal é identificar candidatos comprometidos com as camadas trabalhadoras. Devemos também separar das propostas o princípio que a sustenta. Somente assim se é possível distinguir uma proposta da outra. Senão, todas serão bastante parecidas.

Tenha um bom e sábio voto!

Ósculos e amplexos.

20 setembro 2010

Arte na Faixa.


Em Curitiba, somente amanhã serão mostradas as intervenções artísticas urbanas nas faixas de pedestre pelo site. Mas, consegui pegar uma e estou publicando em primeira mão.
Adorei a ideia... sinceramente, todas as faixas de pedestres poderiam ter intervenções artísticas.
Ósculos e amplexos!

14 setembro 2010

Sobre o Piá de Prédio.

Todo mundo sabe que em cada lugar deste imenso Brasil há palavras próprias que emprestam, por si só, identidade cultural. Não se imagina um carioca pedindo um cachorro quente com duas vinas. Tampouco, um pernambucano pedindo abóbora.

Bom, estou escrevendo sobre uma expressão usada recentemente pelo ex-Governador do Paraná para descrever sobre um determinado candidato. Faço pois, no Paraná mesmo, há muitos que estão me perguntando o que o ex-Governador está querendo dizer.

A palavra, ou expressão, piá é de significados diversos para a população curitibana. Na verdade, ninguém sabe ao certo o que a palavra significa. Há consenso apenas quanto o uso ao se referir a um menino. E, de uso tão comum, que mesmo os que são de outras cidades, rapidamente já incorporam a palavra em seu vocabulário.

Aurélio de Holanda, que seu dicionário pertence hoje a uma imensa e poderosa rede educacional com sede em Curitiba, considera que o verbete piá significa "menino de engenho". Em guarani, língua onde se originou o nome da cidade, "pyã" significa coração. E durante muito tempo, para minha mãe, eu era chamado de piá toda vez em que eu quebrava algo em casa. (Tenho calafrios só de lembrar a frase: ah, piá!).

Até aí, tudo bem. Basta vir a Curitiba uma vez, ou ouvir o comentário de alguém que veio para que a palavra deixe de ser estranha. A junção Piá com Prédio é que chama a atenção. Tanto que em pleno 7 de setembro, na página da Gazeta do Povo, jornal curitibano que praticamente batizou a "Boca Maldita", causou alvoroço entre os ilustres senhores do Senadinho curitibano. Estavam eles irados com um blog do jornal em que se dizia que o significado seria algo como "filhinho da mamãe". O que faço coro com eles.

O significado de Piá sempre foi polêmico, mas as mães curitibanas nunca chamaram seus filhos assim em momento de ternura. Sempre foi atrelado à descoberta de alguma traquinagem. Pelos vizinhos então, piorou: era mais equivalente ao "pivete" usado no Rio de Janeiro que ao "guri" usado no Rio Grande do Sul.

Piá de Prédio seria o inverso: aquele que não teve a oportunidade de fazer traquinagem. Que nunca teve o prazer de subir em uma árvore, de empinar uma pipa, ou de correr atrás de uma bola. Era o chato do "dono da bola" ou melhor "do video-game", que desligava a chave geral da casa caso não ganhasse dos amiguinhos de joystick. Era o nome, ou melhor, a forma pelo qual a molecada do bairro se vingava dos esnobes do centro da cidade. Piá de Prédio, enfim, era aquele que se um dia empinou pipa, foi de sacola de mercado e pela janela do décimo andar.

Polêmica desfeita, está dado o significado de piá de prédio - pelo menos para mim.

Ósculos e amplexos e espero que agora vocês possam entender o que o ex-Governador quis dizer quando chamou o ex-prefeito de Piá de Bosta!

10 setembro 2010

Pesquisa IBOPE/RPC: uma leitura



Bonecos: Gilberto Yamamoto

Concordo com a leitura de Celso Nascimento sobre a pesquisa IBOPE/RPC de fim de agosto sobre a corrida ao Palácio Iguaçu: é um primeiro momento, uma primeira mudança. Mas, ainda é cedo para comemorar.
O que a frieza das pesquisas apontam é: a campanha de Osmar promete alavancar no final, e a campanha do Richa a decair. E, devido aos inexpressivos resultados dos demais candidatos, um empate técnico novamente irá marcar o resultado final.
A surpresa, no entanto, está na quebra da constante. Ou seja, pela primeira vez alguns resultados apareceram na pesquisa. A primeira, e mais óbvia, é o crescimento poderoso que Osmar obteve após a entrada engajada do Presidente Lula e de Dilma na campanha. Diminuir de 16 para 9 pontos em tão pouco tempo é notório. Ainda que, em pesquisa, deve-se observar o todo e não apenas a pesquisa em si, trata-se de um resultado que promete uma reta final eletrizante.
A pesquisa mostra outros fatores também interessante. Pela primeira vez na história curitibana, um candidato do PT está liderando a pesquisa. Nem no auge do lulismo, Curitiba nutriu simpatia ao Partido dos Trabalhadores (aqui deu Serra e Alckimin nas eleições passadas). E, além de Dilma estar na frente, tem-se ainda a marca de 81% de satisfação com o governo federal (três pontos acima da média nacional). O mau humor curitibano está mudando.
A parte chata da pesquisa está na análise sexista que a RPC também sondou: entre as mulheres, dá Beto. Quem sabe se ambas as campanhas passarem a propor algo mais digno para as mulheres, o critério delas não mude?
Ósculos e amplexos.
PS* O blog ainda está em reformas, mas já é possível verificar algumas de suas transformações.

04 setembro 2010

Afinal, qual o contexto?


Não me aguentei: tive que bater uma foto do salão de cabeleireiros ao lado da minha casa em Praia de Leste. A frase de Shakespeare é, no mínimo, curiosa.
Procurei no Google seu contexto, mas não há. (O que me leva a crer que não exista). Procurei em qual obra a frase se encontra. Nem um dos mais de sessenta sonetos que li eu consegui achar a frase.
Sem o contexto de Shakespeare, fiquei sem o contexto do Salão também. Será uma ironia? Será que a dona, após tantas e tantas maquiagens, decidiu se rebelar contra a falsa beleza dos cosméticos? Ou será que é apenas um aviso de que não possui poderes mágicos, tampouco é capaz de realizar milagres?
De qualquer maneira, a placa conseguiu ganhar um admirador.
Ósculos e amplexos!

01 setembro 2010

"Pió que tá pode ficá"





Gaudêncio Torquato é conhecido jornalista, professor da renomada USP, consultor de comunicação bastante famoso em sua área. Mas, ao escrever seu texto “pior que está não fica”, assinou como consultor político para O Estado de São Paulo. Cometeu dois equívocos logo de início: não se trata de um texto político, tampouco em um veículo politicamente imparcial.


Qual a relação entre as mudanças históricas no pensamento político com a expansão da alienação, ou com a ridicularização da política? Para Torquato, apenas a de que nossa consideração para com a política chegou ao fundo do poço. E, para ilustrar seu argumento, utiliza-se da campanha eleitoral de Tiririca.


Para Torquato, não será espantoso se Tiririca se eleger, pois outras celebridades já conseguiram. E, defende duas hipóteses para tal movimento: “ou os novos atores foram compelidos a ingressar no espaço público para cumprir relevante missão a serviço de coletividades que representam” ou “a opção se deve ao esgotamento do ciclo profissional e ao vislumbre de uma carreira sob as luzes da democracia representativa”. Para logo após ignorar a linha investigativa iniciada para começar outra com o propósito de tentar desvendar o que significa a candidatura de celebridades.


Para buscar um significado, elabora o seguinte questionamento: “a razão para profissionais de outros nichos ingressarem no mundo da política tem que ver com a eleição de uma figura de origem humilde para o cargo mais importante da Nação?”. Para tal hipótese, Torquato concorda de início, mas considera que há outros componentes talvez mais apropriados para explicar tal fenômeno. E vai buscar na explicação psicológica de alguma teoria dos ídolos o motivo pelo qual uma celebridade consegue se eleger.


Termina seu texto parabenizando as celebridades que usam de sua fama para lutar por algum ideal ou para representar uma base política real. Parabeniza o sucesso do governo Lula. E critica a existência dos oportunistas e quadros debochados que aparecem no horário eleitoral, associando a inércia que a política possui no Brasil. E termina concordando com Tiririca quando diz que “pior que tá não fica”.


Minha vez: quanta bobagem, senhor Torquato! Pior que está pode ficar sim!


Antes de eu explicar como podem as coisas ficarem pior que estão, questionemos o que vossa sapiência insinuou em seu texto. Primeiramente, não se coloca em um mesmo saco as celebridades. Há inúmeras que vieram de uma base política real, que representam inclusive anseios de classe. Netinho de Paula, do PcdoB, apesar de não ser comunista, já socou jornalista em “pânico” por insinuações preconceituosas diante de uma noite de gala em dia de luta pela igualdade racial. Leci Brandão sempre teve atuação entre as comunidades carentes, sendo por muitas vezes sua voz. Enfim, tantos que vossa sapiência diz que aplaude, mas que de uma certa maneira, em seu texto, acabou colocando-os em um mesmo saco.


Não é de hoje que a política possui quem a ridicularize. Lembra-se do Macaco Tião, que é até hoje o animal mais votado da história? Ele foi invenção do Casseta e Planeta em 1988. E o rinoceronte Cacareco (que acho que você o mencionou an passant no fim do seu texto, mas não ficou claro) da década de 1950? Pior, Silvio Santos para Presidente? Há alguma ligação entre tais momentos históricos? Entre os candidatos? Entre a ridicularização?


Agora, preocupante é afirmar que a política é para políticos profissionais. Afirmação quase platônica, de efeito tão fascista quanto o desejado por este filósofo quando em sua A República. Principalmente para um país que finalmente começa a ter uma democracia amadurecida. E que, eleger o Tiririca, que ridiculariza a democracia, é sim surpreendente e jamais deverá ser vista com naturalidade.


Pior que está pode ficar. Podemos retroceder em nosso estágio. Ainda não temos uma democracia tão amadurecida assim, apesar de nosso melhor momento político, econômico e social da história. Podemos eleger quem acha que dois professores ganhando mal e sem o menor incentivo em uma mesma sala é a solução para os problemas educacionais. Podemos eleger Tiriricas, e institucionalizar a corrupção e a falta de compromisso para com o povo. Podemos aceitar ideias tiranas para solucionar o problema de sermos um país ainda longe de possuir o PIB que possui os Estados Unidos. Pior que está pode ficar!


Estou apenas usando meu livre exercício da crítica. Não te conheço, mas respeito seu trabalho em comunicação. Mas, francamente, quanta bobagem para quem assina ser consultor político, e para um jornal de enorme circulação (e questionáveis posicionamentos autoritários ao longo de todo o período de amadurecimento político brasileiro que tivermos nestes últimos oito anos). Pior que tá sempre há como ficar.


Ósculos e amplexos!


PS: O blog ainda está em obras... mas as eleições dão situações que temos que parar o que estamos fazendo para publicar nossa opinião.

18 agosto 2010

EM OBRAS


Queridos e queridas!


Faz tempo que não atualizo minha cozinha. Acreditem, é por um bom motivo. Quero fazer uma reforminha básica nela. Então, obrigado aos que me cobraram novos posts.


O motivo pelo meu sumiço? São vários: trabalho novo, fim de faculdade (TCC)... e por aí vai!



Desculpem-me pelo transtorno. Estou em obras para melhor postar novidades!


Ósculos e amplexos!

02 julho 2010

Acabou a Copa para nós!

Seleção brasileira na Copa, somente em 2014. A campanha para o hexacampeonato teve de ser adiada por pelo menos mais quatro anos. Como diriam os colegas fãs da bola: a seleção "pipocou". Mas, o que aconteceu?

Aconteceu uma Copa do Mundo em um país onde há pouco tempo eliminou a segregação racial institucionalizada que possuía. Em um continente arrasado pela cobiça das chamadas nações poderosas. Em meio a um povo alegre, porém sofrido, que nunca perdeu as esperanças de um dia as coisas melhorarem. Entre estádios monumentais e alta tecnologia das televisões, vivem os trabalhadores sul-africanos com todas as desigualdades sociais que sempre tiveram.

Aconteceu um futebol pequeno, mas com grandes "bodes expiatórios". Primeiro, culparam a bola. Depois, culparam as variações de temperatura e clima entre as cidades-sede. Culparam o gramado, culparam juízes, culparam quem coloca a culpa em outras pessoas. Não culparam o país, pois seria escancarado o preconceito para com os países pobres e sua maioria étnica negra - mas que não se furtaram de dar indícios de que isto ocorreu.

Aconteceu uma nivelação entre as equipes. A falta de espetáculo incomodou os torcedores, que declararam que se tratou de um nivelamento "por baixo" - [sabe-se lá como é que se nivela algo dessa maneira]. Mas o fato é que aconteceu um crescimento do nível esportivo dos países mais pobres, que passaram a ter políticas de Estado para o esporte e desenvolvimento físico de seus povos. Coisa que não foi acompanhada pelos países ricos, que tem seu futebol marcado pelos jogadores "importados" e a grande distância entre o esporte de base e o de alto rendimento.

Por fim, aconteceu uma Copa. Uma etapa final onde 64 seleções disputam para ver qual delas, mas apenas uma, se sagra campeã. Um momento em que mexe com o coração de bilhões de pessoas no mundo inteiro. Que faz com que trabalhadores brasileiros sejam dispensados de seus trabalhos, mas que terão que pagar ao patrão de seus salários - e obviamente que o patrão terá um prejuízo insignificante se comparado aos rios de lucros que já ganhou explorando os seus trabalhadores.

Ah! Houve um técnico que não era técnico comandando a seleção dele, e não a brasileira. Um técnico que peitou a Globo, mas que esqueceu da magia que os seus comandados provocam no povo brasileiro. Fez treinos e mais treinos em regime de internato. Não levou os ídolos do povo. E o resultado foi a seleção ter "pipocado" tanto na Olimpíada de Pequim quanto na Copa da África.

Sorte da Holanda, que soube explorar todos os defeitos do Brasil, com um futebol feio mas eficiente. Venceu um time que depende de três jogadores, contra uma seleção que abriu mão de criativos jogadores justamente no setor de criação e meio campo (Ronaldo Gaúcho e Ganso).

Sorte da Argentina, que tem uma grande seleção e um técnico que sabe dar espetáculo e elevar o moral da tropa. E que, muito provavelmente enfrentará a Holanda na final.

Azar nosso!

24 maio 2010

Amor sem escalas (Up in the air): gênero indefinido!


Na capa do DVD, o gênero classificado é comédia. Para muitos críticos se trata de um romance. Para os mais conciliadores, comédia-romântica. Para mim, classificaria-o como melancólico. Mas, como não há essa classificação, recomendo que o filme "Amor sem escalas" (Up in the air, 2009) fique na prateleira de gênero indefinido.

Há tempos não via argumentos tão bem desenvolvidos e personagens tão bem interpretados, em uma história tão bem contada. Mas, alerto: dê uma chance para o filme te conquistar, pois demora para isto acontecer. Aliás, a sutileza é a tônica do filme e o tempo dele também é bem sutil, em um limiar de quase total monotonia. Entretanto, aos poucos, cada personagem vai conquistando a quem assiste ao filme. E, quando se aproxima o fim do filme, estamos completamente apaixonados pela história e atônitos pelo final sutilmente surpreendente.

O nome dado em português não colabora. Mais uma para a saga "como destruir o interesse por um filme logo pelo título". Não me surpreenderia se alguém entrasse com processo por propaganda enganosa. Ryan Bingham (George Clooney) possui a mais lucrativa e medíocre profissão em tempos de estouro de bolha econômica e crise financeira: ele trabalha despedindo pessoas. As empresas contratam empresas como a de Bingham não por não ter coragem de despedir seus funcionários, mas por elas possuírem uma abordagem capaz de dar falsas esperanças aos miseráveis demitidos e assim diminuir o número de processos trabalhistas. Bingham dá palestras "motivacionais" sobre como viver sem "pesos na mochila", sendo tais pesos qualquer coisa que não caibam em uma mochila, como casa, família, parentes, amores, etc. "Não somos cisnes, somos tubarões" é a tese de Bingham, e ele realmente vive sua estúpida filosofia de vida. Como não tem uma família, nem mesmo uma casa equipada para se chamar de lar, além de uma profissão da qual se torna impossível se dizer orgulhoso, seus símbolos de status são: atendimento preferencial para VIP nos aeroportos, hotéis e locadoras de veículos. Seu hobby e sonho: acumular 10 milhões de milhas aéreas para ser membro de um seleto clube de milhagens de uma empresa aérea americana (e ele simplesmente não come nada que não lhe acumule milhas por isso).

Bingham ama a vida que tem. Dos 365 dias do ano, ele passa 322 viajando entre um aeroporto e outro. Sejamos sinceros: há algo mais melancólico que um aeroporto? Ele conhece uma versão feminina de si, Alex (Vera Farmiga). Mesmo soando um tanto cômico, os flertes se dão em meio à cartões de clubes de fidelidade - não havendo mais limites para a melancolia. Seu "namoro" com Alex é por meio de roteiros profissionais coincidentes (ainda que o próprio filme, por intermédio da irmã de Bingham, diga que adultos não namoram). Trocam carícias e picantes provocações por meio de seus celulares (e por mensagem de texto!). Por fim, Bingham tem que lidar com a novata e inovadora colega de trabalho Anna Kendrick (Natalie Keener), que propõe revolucionar o trabalho implementando um sistema de demissão à distância, via teleconferência.

Há poucos momentos em que Bingham demonstra ter coração. O primeiro, é o romance com Alex, que aos poucos ele vai se permitindo criar vínculos. O segundo, a recusa pelo procedimento de Anna - afinal, mesmo não se importando com ninguém, ele se importa consigo próprio e argumenta que o encontro pessoalmente evita maiores danos no futuro desempregado. E o terceiro, a tentativa de integração com sua família (não darei mais detalhes para que esse texto não contenha spoilers).

Amor sem escalas é uma apologia à melancolia. Seja pela crise econômica que é o pano de fundo, seja pela vida sem maiores apegos da sonhada vida dos tubarões executivos, seja simplesmente por ser a vida algo melancôlico para quem quer vê-la assim. É um filme excelente, mas sem grandes cores. Um cinza que vai colorindo o vazio do sonho americano.

Ósculos e amplexos!

PS* Apesar de Bingham ser compulsivo em matéria de se ganhar tempo nos "check in", o filme dá excelentes dicas para amenizarmos o sofrimento aeroportuário (principalmente com as paranoicas determinações de segurança que há nos EUA).