26 outubro 2010

Que campanha é essa?


A coluna de Gilberto Dimenstein "Que Serra é esse" chama a atenção para um fato interessante que ocorreu na campanha presidencial: sobre um suposto equívoco de Serra ao abordar elementos da política de maneira que o descaracteriza. Segundo Dimenstein, causa estranheza o comportamento de político irresponsável adotado pelo candidato tucano. E que essa estranheza se tornou ainda mais evidente no debate, quando a referência sobre quem é ele desapareceu de uma vez.


Não apenas discordo de Dimenstein sobre sua abordagem acerca das privatizações, ainda que eu respeite o autor, mas também discordo de que se trata de um mero erro de campanha a descaracterização de Serra. Acontece é que um modelo político, liderado por Fernando Henrique Cardoso, foi derrotado nos últimos oito anos de governo Lula. E que Serra representa este modelo e o defende. Mas, teme apresentá-lo diante de uma população que dá sinais expressivos de concordância de que tal modelo deva ser enterrado.


Diferentemente de Dilma, que possui um partido que historicamente construiu as propostas que defende e que tem profundo conhecimento de causa, Serra apela para uma crítica de manipulação raza e que nunca fez parte do rol de propostas que seu partido defende. Busca nos elementos de manipulação midiática descontruir a campanha de Dilma, quando a população - ainda que em sua maioria alienada - busca entre os candidatos aquele que melhor transmitir a mensagem que o "daqui pra frente será ainda melhor, pois o hoje está ficando bom".


Serra está irreconhecível por temer apresentar um projeto que já foi derrotado. E Dilma só não apresenta em totalidade o projeto petista devido a uma responsável postura de costurar desde já sua governabilidade. Isto explica o motivo pelo qual a campanha de Serra foi tão baixa, do motivo pelo qual a campanha foi tão apelativa. Quando as propostas não são sólidas, resta a apelação e a crença de que tão somente uma boa campanha publicitária é capaz de eleger quem quer que seja (uma boa campanha pode até vender um produto, mas não faz com que produto ruim se torne bom).


Em resumo, apesar de eu achar que ambas campanhas estejam fugindo do debate necessário em nome de um trato razo e temeroso do enfrentamento dos problemas nacionais (afinal, qualquer solução causa uma polêmica demasiadamente grande a ponto de correr riscos demais para um momento eleitoral, custando a própria elegibilidade do candidato), a campanha de Dilma está melhor que a de Serra. Simplesmente por ter Dilma defendido o modelo que está com elevados índices de aprovação, enquanto que Serra conta com apenas um modelo derrotado e elevados índices de preconceitos nutridos de forma velada mas que se revelam por meio do voto secreto (preconceitos de classe, de gênero, etc). E qualquer um deles, Serra não pode defender abertamente.

Nenhum comentário: