05 outubro 2011

Um mega-evento no Brasil pode acabar não sendo para trabalhadores brasileiros.

O que aconteceu com este Rock'n'Rio? Muitas pessoas estão se perguntando, mas geralmente se referindo à enorme salada-mista de estilos que passaram no "palco mundo" – o palco principal do mega-evento. A resposta não pode vir se olharmos somente à edição deste ano, afinal, o Rock'n'Rio sempre foi isso mesmo – e talvez justamente o segredo de seu enorme sucesso seja trazer o que atrai todos os públicos ainda que estes públicos não se comuniquem entre si.

 

O mais interessante, e o que cabe enorme reflexão, é que o Rock'n'Rio é o primeiro de muitos mega-eventos que ocorrerão no país nesta década. Ele é a "ponta do Iceberg". Teremos Jogos Mundiais Militares (2011), Encontro Mundial da Juventude Católica com a presença do Papa Bento XVI (2013), Copa do Mundo FIFA (2014) e Jogos Olímpicos (2016). . O Brasil está no foco da mídia internacional o tempo todo (por isso minha crítica quanto ao "Tropa de Elite 2" ser a indicação brasileira ao Oscar, ainda que não houvesse nenhum outro filme feito com tamanha qualidade para servir de concorrente doméstico). Mas, e a população? E a massa de trabalhadores, como fica?

 

Ao ler que o Ministério dos Esportes não se manifestou em sua proposta de "Lei da Copa" em respeito à meia-entrada – que curiosamente o Ministro é um ex-presidente da UNE – é que me dei conta de que muita coisa pode ser sacrificada em nome do evento, e pouca coisa pode ser garantida à população trabalhadora brasileira em nome da governabilidade que se está em jogo diante de tanta responsabilidade para com os gringos. Em nome das grandes estruturas necessárias para os breves e curtos, porém mega-eventos, poderá ser constante vermos a população trabalhadora sendo removida de suas casas ou a agressividade de uma polícia nada humanizada atingir picos elevadíssimos. Ver cada vez mais vezes a militarização de áreas pobres e, como conseqüência, o pensamento de marginalização da população trabalhadora aumentar ainda mais. Ver cada vez mais o ultrajante recurso juridicamente inexistente do mandado de busca coletivo que permite a revista pessoal humilhante em todo aquele que subir ou descer o morro, entrar ou sair das vilas ou favelas (lembrando que culturalmente, por exemplo, Curitiba chama de vilas as suas favelas). Ver a chamada higienização social, que busca "limpar" os centros urbanos da população de rua, tratar o trabalhador como detrito (vários trabalhadores em Curitiba que trabalham em regime de escala ou mesmo na captação de materiais recicláveis dormem na rua vários dias da semana, pois não compensa para eles voltar para casa que fica muito distante de seu local de trabalho – por vezes duas horas de ônibus por trecho).

 

Para piorar, qualquer posicionamento referente aos mega-eventos rapidamente recebe chancela e cor política. Se é a favor da Copa, é partidário da Dilma. Se critica, é partidário da oposição. Os veículos de imprensa, que mal e mau pontualmente publicam aspectos desta realidade – afinal, elas lucram e muito com a cobertura destes eventos – ajudam a reforçar a cultura de declarar lado diante de qualquer crítica.

 

Acredito que as forças políticas e os movimentos sociais comprometidos com a população trabalhadora, pouco importando se estão ou não em qualquer esfera de governo, devem se posicionar criticamente em relação aos mega-eventos. O povo brasileiro quer que tudo aconteça e com sucesso para que lá fora o Brasil seja visto com os melhores olhares e com as melhores impressões. Fazer a linha do "é melhor que nada aconteça" é um erro. Mas, devemos estar vigilantes para que a trabalhadora e o trabalhador não seja triturado em meio aos maus tratos e higienizações que virão por aí. A população trabalhadora não pode pagar com sangue o preço dos mega-eventos que virão.

 

Ósculos e amplexos!

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