16 setembro 2009

Mudanças no FIES: já é alguma coisa.


A Lei de Murphy diz que otimista é aquele que, ao pular de um prédio, a cada andar que vai passando vai dizendo: até aqui tudo bem. Essa risível, e até um pouco boba, comparação serve para ilustrar as mudanças no sistema superior de ensino no Brasil. O projeto de Reforma Universitária, que já foi mexida tantas vezes que, como está agora, ficou tão tímida que sua implementação não faria mais os efeitos necessários para transformar a educação brasileira (isto é, caso seja aprovada ainda durante o governo Lula). E não sou só eu que digo isso, o próprio Ministro da Educação lamenta a forma tacanha que o projeto de Reforma Universitária possui em tempos atuais.

Dentre as novidades, tão tímidas, porém que não deixam de ser polêmicas, está a questão do ENEM como substituto do vestibular e as mudanças no FIES.

O ENEM prioriza o raciocínio. Ele faz com que o estudante se depare com situações possíveis de acontecer em seu cotidiano e, para solucionar os problemas, terá que adotar o conhecimento adquirido ao longo de sua vida escolar. Alguns estudantes consideram muito fácil, mas a realidade nacional demonstra que pouquíssimos se dão bem nesse exame. E a média nacional chega a ser constrangedora. O exame foi modificado, ampliado em seu número de questões, o que o transformou em uma prova ainda mais cansativa, e que no fim das contas irá acabar favorecendo somente quem decorou mais "atalhos" para solucionar todas as questões. E, universidades como a UTFPR, irão abolir seu vestibular para adotar o ENEM como critério seletivo.

Não é necessariamente um avanço. O ENEM acaba sendo apenas uma prova unificada, um vestibular diferente. Não faz diferença no fim das contas, pois continuará favorecendo aquele que não tem que trabalhar e estudar simultaneamente. Tampouco privilegia aquele que teve regularidade em suas avaliações ao londo de seu ensino fundamental e médio. Mas já é um começo. A questionável meritocracia do vestibular atual em nada seleciona universitários ideais. Apenas seleciona decoradores de fórmulas, macetes e atalhos. E, quando chegam na universidade, se deparam com os eternos problemas de falta de conteúdo de base para enfrentar as disciplinas mais avançadas de seu curso. Não afetará, no fim das contas, em nada na qualidade do ensino. Nem para melhor, nem para pior.

Outra mudança é sobre o FIES. Irão mudar as regras. Irão flexibilizar algumas exigências, e discute-se a dispensa da figura do fiador. O problema é que não resolve a exploração que no fim das contas acaba se tornando o empréstimo estudantil. Ainda que com juros mais baixos que os praticados pelo mercado, são astronômicos para quem acaba de sair da universidade e que certamente demorará para entrar no mercado de trabalho por conta da dificuldade em se conseguir bons empregos no Brasil. Para o estudante, na maioria dos casos, é melhor tentar pagar sua faculdade sem utilizar o FIES, para não começar sua carreira profissional superior com uma dívida imensa jogando contra.

Vagas, mais universidades públicas, gratuitas e de qualidade; formação crítica, laica, apoiada no ensino, na pesquisa, e na extensão acadêmica; ainda são as reais alternativas para o ensino superior brasileiro. O fim do vestibular não será processado pela inclusão de outro sistema de seleção, ainda que esse seja consideravelmente melhor que o atualmente adotado. De qualquer maneira, só será possível com uma Reforma Universitária profunda e de qualidade. Um retorno ao projeto original de 2004, mas com acréscimos importantes das críticas da comunidade acadêmica deveria ser pensada, bem como as devidas críticas. A Reforma, como está hoje, é tacanha, como diz o Ministro da Educação. E, as principais linhas da Reforma de 2004 estão longe de ser colocada em voga. Apenas "ajustes" delas ajudam, mas não resolvem. Para os mais otimistas, antes de espatifarem, até aqui tudo bem!

14 setembro 2009

Drogas e violência: minha opinião.



No Blog do meu amigo Jonivan tem uma enquete com a seguinte pergunta: "Você acha que legalizar as drogas acaba com a violência?". Entre as opções da enquete temos: sim; não, mas diminui; não, fica tudo igual; violência e drogas não têm nada a ver. Confesso que tive que refletir bastante para dar o meu "clique" na enquete dele.

Para responder a pergunta, necessariamente tem-se que responder outra: qual é a origem da violência no Brasil? E respondê-la não é tarefa fácil. Há inúmeras formas de violência em nosso país. A violência sexual, a violência contra as crianças, assaltos, sequestros, homicídios, são algumas delas e os dados são contados apenas pelo número de vítimas registradas, o que facilmente nos leva a crer de que se trata de apenas números parciais, pois o pior não é revelado por insuficiência de informações. E da sensação de insegurança, somada à impunidade e à imensa falta de acesso à justiça pela maioria da população, o povo não tem outra alternativa senão sentir medo. Medo que beira à psicose coletiva. Medo que faz com que o Brasil não dimunua seus elevadíssimos índices de morte prematura, principalmente entre a infância e a juventude. Todos são ou serão vítimas de alguma forma de violência. Eis a nossa triste realidade.

São inúmeros fatores que fazem com que irrompam assustadores índices de violência (ressaltando que os dados reais são bem maiores do que os coletados pelas fontes oficiais). Fatores sócio-econômicos, geralmente provocados pela pobreza extrema e pela fome. O chamado império da necessidade que atrai inúmeras pessoas ao roubo e à prostituição, uma tentação extremamente forte para quem está no desespero. Fator da omissão do Estado na prevenção e repressão da violência, onde a própria escola, que deveria ser a principal fomentadora da prevenção, quando não é tratada como depósito de crianças, acaba sendo centro de manifestações de violência. Além do Estado geralmente optar por políticas de curto prazo, que sintetiza-se quase sempre em "mais polícia nas ruas", sem um plano macro, de longo prazo, baseado nas regras dos Direitos Humanos, onde todos os formuladores de política deveriam se basear acima de seus compromissos ideológicos-partidários. Fatores sanitários, onde a dificuldade de se ter cuidados à saúde levam a vulnerabilidade biológica da maioria da população, alterando sensivelmente a percepção do valor que possui o corpo humano e criando uma atitude generalizada de indiferença ao sofrimento humano. Fatores repressores, onde a polícia, mal preparada, mal estruturada, e insuficiente, além de um sistema prisional vergonhoso, favorecem a corrupção e a resposta ainda mais violenta da polícia sobre principalmente as camadas mais pobres da população. Fatores culturais, onde as inúmeras formas de discriminação são feitas de forma velada. O negro, o jovem, a criança, o gay, o solteiro, a solteira, a divorciada, o indígena, os idosos, enfim, são sempre tratados como problemas a serem combatidos. Fatores demográficos, onde o excesso populacional nos centros urbanos, e o consequente esvaziamento das áreas rurais, demonstram a desorganização da distribuição de oportunidades. Fatores religiosos, onde a unidade familiar e as doutrinas de vida reta e moralidade são substituídas pela disputa mercadológica de fiéis, favorecendo a intolerância religiosa e os conflitos dela originários. Enfim, além de inúmeros outros fatores.

A legalização da droga não alteraria o quadro de nenhum desses fatores, tampouco suavizariam. Além de se tornar um sério perigo para a sociedade. Prova dos efeitos nocivos das drogas entre os trabalhadores é a quantidade avassaladora de pessoas fora do mercado do trabalho devido ao alcoolismo. Ao entrar para esse grupo social, o alcoolatra acaba sendo vítima de outros fatores que provocam a violência, quando não se torna o próprio agente violento (para ilustrar, vide casos de violência doméstica, provocados pelo pai, pela mãe, ou ainda pelo filho e pela filha, por causa do vício da bebida). A droga enquanto agente da violência está presente em quase todos os fatores, seja ela legal ou ilícita.

Por outro lado, há um problema que diz respeito especificamente ao fator de violência determinado de omissão do Estado: a criminalização do usuário de drogas. Se o alcoolatra é tratado como delinquente em potencial pelo Estado, ao invés de uma pessoa que necessita de auxílio; a situação de dependentes de substâncias ilícitas é indescritível. E, o usuário, por ser criminalizado, ao invés de tratado, não tem outra escolha senão optar pelo caminho que a própria droga lhe mostra: o da violência.

A minha resposta para a enquete não poderia ser outra senão: "não, fica tudo igual". Não há como dizer que droga e violência nada têm a ver uma com a outra, pois estão interligadas. Mas, a droga não é a causa do problema, mas mais uma manifestação dela. E a forma adotada pelo Estado para lidar com o problema é pífio, contribuindo ainda mais para a violência. Legalizar, creio eu, não resolve, e ainda pode atrapalhar ainda mais. Descriminalizar já é outra conversa. É fazer o Estado assumir que tem dependentes em seu país e que precisam de ajuda, e não de cadeia. E essa discriminalização não pode ser à holandesa, liberando o consumo em alguns estabelecimentos ou tolerando o porte de substâncias ilícitas aos usuários. Mas, voltada para a orientação, voltada para o atendimento de necessidades, voltada para o combate à auto-destruição, voltada para a defesa do valor da vida humana. Discriminalizar o uso da droga é válido somente com a fixa ideia de que o médico, assim como todos os outros profissionais, estarão cuidando de uma pessoa doente, e não de "apenas" um bandido.

Ósculos e amplexos.

12 setembro 2009

Versão oficial do governo da Guiana sobre a deportação de missionários.

Após 10 dias da prisão dos missionários estadunidenses de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos, o governo da Guiana se manifestou oficialmente. O Presidente Bharrat Jagdeo desmentiu tanto as afirmações de que o governo desconfiava de espionagem dos missionários, quanto o desconforto com a Igreja devido a proximidade da líder do partido de oposição com os mórmons. Segundo o presidente Jagdeo, trata-se de uma operação que visou seguir a letra da lei sobre imigrações em Georgetown, começando pelo grande número de missionários das mais distintas religiões por lá existentes. Disse ainda que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é muito respeitada pelo governo, e que a operação não buscou prejudicar a Igreja em específico, mas a de obrigar a todos a seguirem a lei.

O governo da Guiana se pronunciou também sobre as especulações acerca dos missionários serem dos Estados Unidos, o que poderia ser entendida como uma forma de se manifestar contra o país. Segundo o porta-voz oficial, o governo tem estabelecido inúmeros bons entendimentos com o governo dos EUA, incluindo a construção de operações militares em conjunto para garantir a paz na tensa região guianesa disputada pelo Suriname e pela Venezuela.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias informa que é parte de sua crença respeitar a lei e as autoridades. E que, se realmente os documentos dos missionários estavam vencidos, deveu-se a alguma mudança na legislação da Guiana não comunicada às lideranças da Embaixada da Guiana nos Estados Unidos. Esses, por sua vez, não comunicaram a Igreja sobre as novas exigências sobre seus missionários.

A que tudo indica, os missionários irão mesmo embora. E provavelmente virão outros, mas agora com maior atenção sobre as leis de vistos e migrações da confusa e complexa Guiana.

08 setembro 2009

Conversa de taxista!

Foto: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo

Há uns tempos atrás, peguei o taxi desse sujeito da foto. Além de seu atendimento extremamente polido e educado, o taxi é uma maravilha: limpinho, todas as opções de cartões para pagamento, balas à vontade, DVD-player para espantar o tédio, uma infinidade de filmes (inclusive algumas raridades para os mais cinéfilos), e um servicinho extra: um livro que ele publicou contando as histórias mais hilárias que ele já vivenciou na "viatura". Comprei o livro para ajudar o camarada (que algum amigo meu, desavisadamente, pegou emprestado da minha biblioteca e ainda não me devolveu).

Comprei o livro sem esperar muita coisa. Afinal, tratava-se de mais um entre milhares de livros abordando em crônica o cotidiano. Mas, para minha surpresa, o livro se tornou um passatempo divertidíssimo. As histórias, por se basear em relatos reais, nunca tem um final previsível. E são contadas com uma fluidez que faz com que a gente simplesmente devore o livro em alguns minutos.

Eis que na bienal do livro, em Curitiba, deparo-me com o mesmo livro, com uma nova capa, e agora com uma editora (Juruá). Bem mais caro do que quando comprei no carro do Eloir José (o autor). Fui pesquisar, e o sujeito agora tem página na internet, inúmeras reportagens feitas com ele, e em breve uma visita ao Jô Soares. Virou uma história de sucesso.

Fico muito feliz quando um trabalhador consegue fazer "algo mais". Ao invés de reclamar da rotina, ou de simplesmente "ganhar o pão nosso de cada dia", o moço resolveu investir no que gosta. Bicho do Paraná, um brasileiro que não desiste nunca! Recomendo a leitura para os amigos, e desejo muita sorte: para que ele continue escrevendo, e para que eu consiga um dia pegar novamente uma corrida com ele.

Ósculos e amplexos.

07 setembro 2009

"Verás que um filho teu não foge à luta!"


Exceto nos esportes, não sou ufanista. No futebol, no basquete, até em jogo de bola de gude, defendo feitos extraordinários do Brasil. Mas, quando o assunto é Brasil em qualquer outra área, sou um patriota, mas não sou ufanista. E, ao ler a matéria de hoje da Gazeta do Povo "Defesa do bem público é exemplo de civismo", senti-me contemplado.

Já foi o tempo em que criticar as mazelas de nosso país era sinônimo de anti-patriotismo. "Ame-o ou deixe-o", frase infeliz que marcou o regime militar e que eu via quando criança principalmente nos carros blindados da polícia ou de bancos, foi substituída por "Brasil: um país de todos". Sim, um país de todos, mas ainda um país que privilegia poucos. Não há como amar sem cuidar, então, como patriota que mareja os olhos quando canto o trecho "Verás que um filho teu não foge à luta", denuncio, organizo-me, escrevo, contribuo da melhor forma que posso, e sempre.

Senti-me contemplado, pois o curitibano, segundo a pesquisa contratada pela Gazeta, 59% defende que patriotismo é "defender o interesse público e o bem-estar coletivo", contra 20% que ainda enxerga patriotismo enquanto "venerar os símbolos nacionais". E 77% dos entrevistados dizem que exercem a cidadania votando, cumprindo corretamente seus deveres, sendo solidário, e fazendo valer os seus direitos, contra apenas 11% que dizem exercer sua cidadania torcendo pelos atletas brasileiros em competições internacionais.

Concordo com o Presidente da UPE, Paulo Rosa Junior, que diz que o povo brasileiro está voltando a ter orgulho do país como fruto das melhoras e do crescimento. Outros elementos somam: as gerações atuais que fazem intercâmbio já não mais percebe que o melhor do mundo está lá fora, mas que boa parte está é aqui dentro. A segurança econômica do país faz com que inúmeros imigrantes brasileiros retornem quando esbarram no desemprego mundial, na crise financeira, e nas medidas xenofóbicas principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

E a vergonha continua com as velharias de nossa nação: a classe política, principalmente os mais tradicionais parlamentares. Filhos de períodos nada auspiciosos do país, ainda acreditam no jeitinho, nas brechas burocráticas, no enriquecimento ilícito. Novamente me contempla, pois sempre militei entre a juventude, que acredita que um novo Brasil é possível. Que teve coragem de impedir um presidente corrupto, que enfrentou os desmanche do Estado do presidente intelectual, que elegeu o presidente operário, e que pega no pé desse mesmo presidente por não ter feito as reformas que o país tanto precisa.

Ainda somos um país com miséria, com famélicos, com elevados índices de violência, e muita, mas muita impunidade. E, ser patriota é, sem dúvida, enfrentar todas essas mazelas.

Ósculos e amplexos, e ótima semana da pátria!

Uma novidade no movimento estudantil?


Segundo a máxima do jornalismo, de Charles A. Dana, "Um cachorro morder um homem não é notícia, notícia é quando um homem morde um cachorro". Não há outra forma de ver a matéria da Gazeta do Povo do último domingo, 6 de setembro, sobre a atual composição da diretoria da União Paranaense dos Estudantes. A matéria traz os integrantes do movimento Oxigênio em destaque, cujos principais membros são ligados à partidos como o DEM e o PSDB. Porém, a matéria não é ruim.

Não se trata de tanta novidade assim. Por diversas vezes na história da UPE e do movimento estudantil paranaense os "de direita" se fizeram presentes, inclusive no comando da entidade. Isso reflete a postura democrática da entidade, onde reproduz em seu seio as disputas políticas nacionais. Se existem estudantes filiados à partidos como PSDB, nada mais justo e natural que esses se organizem e disputem as entidades estudantis. O enfoque dado pela Gazeta foi a de que há tempos o ambiente estudantil é dominado pelos "de esquerda", e que a presença dos "de direita" mostra mudanças no movimento.

Em outros Estados, como por exemplo Santa Catarina, a disputa entre esquerdistas e direitistas é mais evidente. Palmo à palmo, universidades são disputadas por legendas como PP, PSDB, PPS, PCdoB, PMDB, PT, DEM, PSC, além de organizações como Demolay, Rotaract, Leo, e tantos outros. Isso realmente não é problema, pois garante um amplo leque representativo, além de inúmeros pontos de vista distintos sendo debatidos e decididos pelas entidades estudantis. Não é problema, mas desde que envolva os estudantes, não ficando somente na disputa das entidades.

Na matéria da Gazeta, um dado preocupante: menos de 1% dos estudantes se envolvem com o movimento estudantil, e menos de 25% diz ter ouvido falar ou saber quem é o presidente da UPE ou da UNE. Isso demonstra uma outra evidência: a necessidade do movimento estudantil ser repensado. Um verdadeiro desafio para os líderes estudantis é descobrir como envolver os estudantes que não se identificam com o engajamento político. Fazer isso, porém, sem abrir mão da necessária organização política e dos militantes políticos. Debater a realidade dos estudantes, fazendo-a passar pelo centro acadêmico, mas sem isolar o que não é da esfera do debate político é um grande desafio tanto para "de esquerdas" como "de direitas".

Por fim, tenho que parabenizar a matéria sobre a posição das forças políticas sobre a questão Sarney. Conseguiu mostrar que cada força tem um pensamento bastante distinto uma da outras. Além disso, tenho que parabenizar o Paulo, Presidente da UPE, que em nome da UJS foi mais profundo, exigindo uma reforma política no país.

Ósculos e amplexos.

06 setembro 2009

Mormons na Guiana: gafe documental?



Se para quem mora no sul do Brasil como eu é extremamente difícil obter informações sobre o norte brasileiro, obtê-las sobre a Guiana é um exercício de paciência e de força de vontade. Guiana é um país pequeno, de população que não chega à metade, em comparação, da população de Curitiba. De democracia bastante instável e recente, sua história política é recheada de fraudes, conflitos étnicos, e constantes ameaças de perda de seu território e de sua soberania. Guiana faz parte do grupo de países conhecidos como "uma outra América do Sul", ou ainda, porção caribenha da América do Sul (Guiana, Guiana Francesa, e Suriname). A questão religiosa é inevitavelmente ligada aos conflitos étnicos de uma população composta por mais da metade de origem indiana, menos de 30% de origem africana, e uma minoria que não chega a 10% da população de outras origens étnicas, incluindo brancos e índios.

Além de um turbulento passado político ao longo da guerra fria, onde já tentou ser satélite da URSS, já flertou com os EUA, uniu-se ao Brasil no bloco dos não-alinhados, possui também inúmeros traumas quando o assunto é liberdade religiosa. O país instaurou a liberdade de culto, revertendo, portanto, a radicalidade do chamado Estado ateu, em 1985. Mas, isso não impediu a tragédia de Jim Jones em 1978, onde mais de 900 pessoas cometeram suicídio coletivo liderados por um maníaco, líder da Igreja "Templo do Povo". Desde então, devido o trauma mais do que justificado, qualquer organização religiosa de origem nos Estados Unidos é vista com bastante desconfiança pelo governo guianense, ainda que o caso "Jim Jones" tenha sido único e nada tendo a ver com as denominações atuais instaladas na Guiana. Das inúmeras denominações religiosas existentes na Guiana, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e os Testemunhas de Jeová, são as duas mais fortes e em acelerado crescimento e ambas possuem origem histórica nos Estados Unidos.


Missionários estadunidenses em prisão domiciliar na Guiana.


O caso da expulsão de missionários mórmons do território guianense, porém, não se aplica a uma represália à Igreja propriamente dita, mas exclusiva aos missionários de origem estadunidense. Os missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias oriundos da Inglaterra, de Trinidad e Tobago, e alguns missionários brasileiros continuarão lá e, a que tudo indica, não terão nenhuma medida governamental contra eles. Além disso, nenhum missionário guianense está impedido de fazer missão em outros países.

O que chama a atenção é a forma de como a coisa foi feita. Primeiramente, os missionários estadunidenses são buscados pela polícia após uma ordem judicial de verificação da situação documental dos missionários. Logo após, cerca de 50 missionários foram presos, e atualmente em prisão domiciliar, e podem ser deportados em menos de um mês se a situação deles não for resolvida. A Embaixada dos Estados Unidos na Guiana e a líder da oposição Volda Lawrence (PNCR), após exigirem maiores explicações, obtiveram como resposta do Ministério de Assuntos Domésticos a seguinte resposta: os missionários americanos SUD são suspeitos de espionagem.


Deputada Volda Lawrence, amiga SUD, e líder da oposição.

Com a declaração de suposta espionagem, um verdadeiro delírio político segundo Lawrence, todas as possíveis especulações caem por terra. Lawrence acusa o Ministro de "querer se aparecer criando medidas que afetam cidadãos estadunidenses"; e com a omissão do Presidente Jagdeo, o Ministro está conseguindo obter sucesso.

O trabalho missionário na Guiana não irá parar mesmo que a deportação se confirme. É um trabalho que consegue fazer com que afros, hindus, índios, e brancos vivam em harmonia e superem as diferenças étnicas. Além disso, o programa de Bem-Estar da Igreja está ensinando milhares de pessoas a saírem da miséria extrema, além de levar auxílio humanitário para as vítimas das constantes enchentes que assolam o território guianense (abaixo do nível do mar).

O caso da Guiana mostra que nosso Continente não é nem um pouco livre de guerras e conflitos de origem étnica. Além de possíveis confrontos entre Venezuela e Guiana, Suriname e Guiana, há ainda sérios problemas na região "virtual" de fronteira entre Guiana e Brasil. Nosso país continua ignorando a Guiana, e, enquanto isso, inúmeros brasileiros entram ilegalmente em busca de ouro e diamante na região da Guiana amazônica. Soma-se ainda toda sorte de tráfico que exite nessa região, de drogas à de mulheres. Um barril de pólvora na América do Sul.

04 setembro 2009

4ª Verdurada de Curitiba será 13/09!


Para quem nunca ouviu falar, participar de uma verdurada pode ser, no mínimo, uma experiência social interessantíssima. Trata-se de uma festa onde só tocam hardcore, a galera dança numa explosão de socos, encontrões e "voos" sobre a plateia. Quem vai, vê logo um ambiente bem punk, com música agitadíssima, e os mais diversos visuais. Mas, aos poucos, algumas coisas vão chamando a atenção: não tem briga, não tem bebida, não tem cigarro! E no final, ainda tem um jantar vegetariano.
A próxima verdurada de Curitiba está marcada para o dia 13 de setembro, à partir das 15 horas na Casa do Estudante Luterano de Curitiba (CELU, do lado do Passeio Público). Todos são muito bem vindos e pagam a simbólica quantia de R$ 7,00.
Na verdurada também tem debates sobre política, tem debate sobre cultura, tem bazar de discos, roupas. Além de provar que o hardcore não morreu, os straight edges* mostram que é possível ir e voltar de uma festa animadíssima sem feder à cigarro e cachaça e ainda se divertir bastante.
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* Straight Edge (sem uma tradução literal para o português, pode ser lido como "cara limpa", "careta"); movimento hardcore surgido nos Estados Unidos, cujos adeptos, em sua maioria, utilizam um X nas costas das mãos para informar que não bebem bebidas alcoolicas e nem fumam. Conta a história do rock que uma banda de hardcore foi tocar em Washington, e que para autorizar menores de idade a entrarem no bar, o dono teve a ideia de marcar as costas das mãos dos menores com um X preto. Dessa forma, o garçon saberia que não deveria oferecer e nem servir bebidas alcoolicas ou tabaco para eles. Com o tempo, adeptos do vegetarianismo e do veganismo aderiram ao movimento straight edge; criando a verdurada. Para ser straight edge não precisa ser vegetariano ou veganista, mas tem que se abster de qualquer droga. E, é claro, gostar muito de Hardcore!

Missionários SUD podem ser deportados da Guiana.


A polícia deteve 38 missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em missão em Georgetown, capital da Guiana, alegando que estes estavam com seus vistos de permanência vencidos. Em prisão domiciliar, os missionários podem ser deportados para os Estados Unidos em um mês caso a situação não se resolva.

Segundo o porta-voz da Igreja, em Salt Lake City, Scott Trotter, "estamos aguardando maiores explicações sobre o ocorrido, além de negociar com as autoridades dos dois países para que tudo se resolva amigavelmente". A embaixadora dos Estados Unidos na Guiana, Karen Williams diz: "não recebemos nenhuma notificação de mudanças para a emissão de vistos de permanência por parte do governo da Guiana (...) e a Igreja costuma ser bastante rigorosa sobre a situação documental de seus missionários (...), mas não quero especular nenhuma razão para o ocorrido". Por fim, o advogado da Igreja, Nigel Hughes, informou que aguarda maiores explicações dos motivos que levaram à ordem judicial para a polícia deter os missionários.

Extra-oficialmente, alguns jornais da Guiana e dos Estados Unidos afirmam que se trata de uma ação política por parte de setores do governo "desconfortáveis" com a presença mórmon no país. Segundo esses jornais, a origem dessa ação policial é uma espécie de retaliação à visita da líder da oposição Volda Lawrence a Salt Lake City há dois anos atrás. Nessa ocasião, a líder da oposição foi convidada pela Igreja para participar de reuniões do parlamento de Utah na Comissão Racial. De lá para cá, a Igreja tem sido apontada como símbolo de oposição ao governo da Guiana, principalmente por causa de seus programas de ajuda humanitária. Os partidos da oposição, e alguns da situação, manifestaram-se dizendo que isso é uma vergonha para o país. Uma vez que a Guiana respeita a liberdade de culto, deve ela não fazer juízo sobre nenhuma fé.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias desenvolve na Guiana inúmeros programas de ajuda. Programas de alfabetização, de técnicas de pequena agricultura, construção e reforma de escolas e asilos, além de doações de comida, roupas, e cadeiras de roda nas regiões afetadas por adversidades naturais e pobreza extrema. A Igreja está presente na Guiana há 20 anos, e existem cerca de 100 missionários na Guiana, sendo a maioria cidadãos estadunidenses, que além de divulgar o evangelho e a Igreja, são responsáveis por organizar e levar boa parte desses programas às pessoas necessitadas. Todos esses programas são custeados pela própria Igreja, através de contribuições de seus membros em todo o mundo. Além disso, a Igreja tem por princípio organizativo não aceitar contribuições por parte de governo, partidos, ou qualquer organização de cunho político; além de não se envolver nas questões políticas do país.
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Foto 1: Polícia da Guiana em operação nas ruas de Georgetown;
Foto 2: Almoço dos missionários da missão em Georgetown;
Foto 3: Capela do Ramo New Amsterdam, em New Amsterdam (foto e pessoa em frente: Élder Bullock)
Foto 4: Família da Guiana com suas recomendações ao Templo.

02 setembro 2009

Movimento Estudantil: complexo de vira-latas X jogo do contente.


Há duas coisas que realmente me irritam no movimento estudantil (ou em praticamente qualquer debate): o complexo de vira-latas e o jogo do contente. Toda vez que um aparece, o outro logo é acionado. E o resultado é o debate se esvaziar ou, no máximo, virar briga de torcida.

Apenas relembrando, "complexo de vira-latas" é uma expressão criada por Nelson Rodrigues. A expressão foi utilizada para explicar a reação dos brasileiros depois que perdeu a Copa de 1950, mas, segundo ele, pode ser aplicada em qualquer situação. Trata-se da voluntária posição de inferioridade que o brasileiro se coloca em relação aos demais países do mundo; uma espécie de Narciso ao contrário, que cospe na própria imagem. Já, o jogo do contente é encontrado no livro "Pollyanna", de Eleanor H. Porter. A personagem aprendeu com o pai um jogo onde aprende a ver sempre o lado bom das coisas. Após receber uma muleta ao invés da cobiçada bicicleta, o pai da personagem diz que isso foi bom para ela, pois ela poderia aprender a valorizar o fato de não precisar usar a muleta. Com isso, ela sai vendo o lado bom em absolutamente tudo: das torturas de sua tia até um acidente de carro que quase a deixou paralítica.

No movimento estudantil funciona mais ou menos assim: quem está na oposição tem complexo de vira-latas, quem está na situação brinca de jogo do contente. O complexado enxerga o mal em todas as coisas, age como se houvesse uma conspiração contra ele por parte da situação, e sempre aponta a organização estudantil como uma instituição que deve se apresentar sempre como inferior às demais instituições do país. O jogador do contente, por sua vez, busca ver o lado bom de cada ação, nunca admite um erro, nunca acha que as coisas poderiam ser melhores ou piores, está tudo sempre bom, sempre vitorioso, que sempre fez algo histórico.

Apenas para ilustrar, pois poderia utilizar inúmeros outros exemplos, o caso dos patrocínios que entidades, como a UPE e a UNE, angariaram para realizarem seus respectivos congressos. O complexado crê e agita bandeira que as entidades estudantis não podem receber patrocínios nem públicos e nem privados. Segundo sua lógica, se recebe patrocínio do setor privado, a entidade se vende ao capital, se da pública, ao governo. Ao mesmo tempo, o complexado desconfia demais da situação para que ela faça finanças por meio de venda de livros ou emissão de carteirinha estudantil. Por sua vez, a situação contra-argumenta que não há problema nenhum em receber patrocínios. Que aquele que contribui para o movimento é amigo do estudante. E que se a entidade vender alguma coisa, será uma prova de sua maturidade em negociar com gregos e troianos.

É claro que ambas as posturas me irritam. Se depender do complexo de vira-latas, as entidades estudantis nunca terão independência financeira. E somente com independência financeira é que uma entidade social pode, de fato, ter verdadeira autonomia. As entidades devem negociar comuns interesses, jamais vender seus ideiais ou princípios. Por isso é que existem os congressos e as diretorias. Não há nada demais em se aproximar de uma empresa ou de um governo que se simpatiza com alguns aspectos da proposta estudantil e fazer com que ela a patrocine. Em qualquer negociação, ambos os lados devem deixar claro onde ficam os limites da negociação. Uma empresa pode patrocinar toda as ações culturais de uma entidade, mas se recusar a fazer o mesmo com as ações esportivas. E, por sua vez, a entidade irá aceitar o patrocínio somente para as ações culturais. Além disso, a entidade deve possuir uma renda própria, que pode ser oriunda da carteirinha estudantil. Isso garante que a entidade não vacile diante de uma proposta mais polpuda, porém contraditória com a política estudantil. Esse é o melhor caminho para a autonomia.

O jogo do contente é tão irritante quanto o complexo de vira-latas. Pois, simplifica tudo pelo lado bom da coisa. Simplesmente angariar patrocinadores para que se tenha um saldo positivo na conta da entidade é um ato irresponsável. Realizar uma ação exige prestação de contas. E essa deve demonstrar com transparência de onde veio o dinheiro, para onde foi, e como foi utilizado. Além de determinar prioridades. Uma empresa que visa combater sistematicamente a carteirinha estudantil não pode ser convidada para patrocinar nenhum evento estudantil, pois a empresa ataca justamente a autonomia das entidades estudantis.

Tanto oposição quanto situação tem o dever de fazer a entidade andar para frente. Complexados e jogadores do contente acabam fazendo com que a entidade estudantil ande de ré. Não enxergam as necessidades nem da entidade e nem dos estudantes. Acabam ficando míopes, daqueles bem ceguetas. Um não avalia os tempos atuais, e o outro acaba sendo irresponsável. E não digo apenas sobre a UPE ou a UNE, mas sobre qualquer entidade estudantil. Falo de oposição e situação, e não de força política A ou B. E quando a entidade comete um erro, esse ou não é percebido ou se transforma em campanha para nova diretoria. E quem perde, como sempre, acaba sendo o estudante.